Por Larissa Ferrari, Co-CEO da Octopus
Em resumo: O SXSW 2026 deixou claro que várias “tendências” já viraram prática. A liderança que sustenta resultado é menos hierárquica e mais humana. A IA executa e escala, mas a decisão continua sendo humana. As marcas agora precisam convencer pessoas e também agentes de IA. E os relatórios de tendências deram lugar à leitura de convergências entre tecnologia, cultura e comportamento.
Acompanhar o SXSW nunca é sobre trazer respostas prontas. É, sobretudo, sobre validar inquietações. Este ano, talvez mais do que nunca, foi também sobre assumir verdades que já não podem ser tratadas como tendência, porque já são prática ou, no mínimo, urgência.
Escrevo não como observadora de mercado, mas como alguém que está todos os dias dentro dele: tomando decisões, liderando pessoas e ajudando marcas a se posicionarem em um cenário que muda mais rápido do que qualquer relatório consegue acompanhar.
Principais aprendizados do SXSW 2026
- A liderança que performa é menos hierárquica, mais participativa e baseada em propósito.
- A gentileza deixou de ser soft skill e virou estratégia de longevidade dos negócios.
- O profissional mais valorizado combina repertório, curiosidade e capacidade de comunicação.
- A IA executa e escala, mas não substitui a decisão humana.
- Com as mesmas ferramentas disponíveis para todos, a diferenciação está na curadoria.
- As marcas passaram a falar também com agentes de IA, não só com pessoas.
- Relatórios de tendências estáticos perderam espaço para a leitura de convergências.
Como deve ser a liderança, segundo o SXSW 2026?
Se uma palavra atravessou praticamente todas as discussões sobre liderança no SXSW 2026, foi humanidade. Mas não no sentido superficial de ser “mais próximo” ou “mais acessível”. Trata-se de uma mudança estrutural na forma de liderar.
A liderança que performa hoje, e que vai sustentar performance no longo prazo, é:
- menos hierárquica;
- mais participativa;
- profundamente baseada em propósito.
A autoridade deixou de vir do cargo. Ela vem da coerência entre discurso e prática. Isso tem impacto direto no resultado: as pessoas performam melhor quando entendem o valor do que fazem, percebem impacto e sentem pertencimento.
Gentileza como estratégia de negócio
Um ponto que me chamou atenção foi o reposicionamento da gentileza. Ela deixou de ser vista como soft skill e passou a ser tratada como estratégia de longevidade, ligada à construção de cultura e à sustentabilidade dos negócios.
Nesse contexto, ganha força o QE (quociente emocional), a capacidade de reconhecer e gerir as próprias emoções e as dos outros. Mais do que isso: ficou evidente que o próximo salto profissional não é técnico, é humano.
Os três traços do novo líder
O novo momento da liderança é definido por três traços: consciência, emoção e engenhosidade. Isso elimina espaço para um modelo que já deveria ter ficado no passado: o líder narcisista, centrado em si mesmo e desconectado do todo.
Líderes que operam apenas dentro do próprio setor estão, inevitavelmente, atrasados. A leitura de futuro exige repertório tecnológico, cultural e até filosófico.
Qual é o perfil profissional que o mercado quer?
Independentemente da idade, o perfil desejado é cada vez mais consistente:
- experiência;
- curiosidade intelectual;
- repertório de negócios;
- visão cultural (e até espiritual);
- capacidade de comunicação.
O diploma, sozinho, não sustenta mais nada. A atualização constante virou pré-requisito.
Há um ponto crítico aqui: as relações estão se atrofiando. Em um mundo hiperconectado, a conexão real virou um ativo escasso e, portanto, valioso.
Qual é o papel da inteligência artificial no trabalho?
Se eu tivesse que resumir o debate sobre IA no SXSW 2026 em uma frase, seria: a IA não substitui a decisão. Ela executa, escala e otimiza. Em alguns casos, recria funções. Mas quem dá sentido continua sendo o humano.
O erro mais comum hoje é fazer a pergunta errada:
- ❌ “O que a IA vai fazer pelo meu trabalho?”
- ✅ “Como eu coordeno as IAs a partir da visão que tenho do meu trabalho?”
A IA deixou de ser ferramenta e passou a ser um sistema, que exige direção, contexto e, principalmente, critério.
O risco do creative flattening
Um risco real apontado no festival foi o creative flattening (achatamento criativo): quando todos têm acesso às mesmas ferramentas de IA, a produção tende à padronização.
Então, onde está a diferença? Na curadoria, na interpretação e na capacidade de sustentar credibilidade. Informação virou commodity. O valor está em como você organiza, conecta e transforma essa informação em algo relevante.
Como as marcas devem se posicionar na era da IA?
Um exemplo citado foi a lógica criativa da The Walt Disney Company. A pergunta inicial não é “o que queremos vender?”, mas “o que queremos que as pessoas sintam?”. Isso muda tudo. O storytelling deixa de ser institucional e passa a ser ativo estratégico de negócio, com impacto direto em mídia, conteúdo e performance:
- mídia passa a ser cultura, não só distribuição;
- conteúdo precisa gerar pertencimento;
- marcas precisam criar significado.
Curadoria realmente vira poder.
Marcas agora falam com agentes de IA
Um ponto mais estratégico, e menos óbvio, foi este: as marcas não estão mais falando apenas com pessoas. Estão falando com agentes de IA.
Isso muda a lógica de construção de presença. Enquanto um humano compara cinco fontes, uma IA compara cinco mil. Ela prioriza preço, qualidade da fonte e consistência da informação.
Com a projeção, apresentada no festival, de que o tráfego de bots supere o humano até 2027, fica evidente: ou a marca constrói credibilidade real e promove acontecimentos associados ao seu DNA, ou deixa de existir nas decisões mediadas por IA.
O que é a “rebelião analógica” da Geração Z?
Há um movimento paradoxal que não pode ser ignorado. A Geração Z, mesmo sendo nativa digital e enfrentando um déficit de ferramentas emocionais, começa a valorizar experiências mais humanas e menos mediadas por tecnologia. É uma espécie de “rebelião analógica”.
Isso reforça a responsabilidade das marcas em construir conexões reais. Ignorar esse movimento é deixar de projetar as marcas para seus consumidores futuros, e já presentes.
As tendências acabaram? O que são convergências
Talvez a conclusão mais direta do festival seja esta: as tendências, como relatórios estáticos, morreram. A velocidade da mudança tornou esse modelo obsoleto.
Segundo Amy Webb, futurista americana e referência mundial em trend reports, o que importa agora são as convergências: momentos em que diferentes forças (tecnologia, cultura e comportamento) se cruzam e geram algo novo.
Para onde estamos indo?
Dois vetores ficaram muito claros no SXSW 2026:
- Os humanos estarão aumentados: tecnologia e saúde devem ampliar a capacidade física, mental e cognitiva.
- O trabalho artificial será ilimitado: agentes de IA podem escalar a produtividade em níveis inéditos.
O que isso significa para agências e marcas
Para nós, como agência, e para nossos clientes e parceiros, isso não é sobre acompanhar discurso. É sobre operar diferente:
- liderar com mais humanidade e menos controle;
- decidir com mais repertório e menos viés;
- usar tecnologia como alavanca, não como muleta;
- construir marcas com intenção, não apenas presença.
E, provavelmente o mais importante, ter clareza sobre o papel que queremos ocupar no mundo que estamos ajudando a construir. No fim, essa continua sendo a vantagem que não pode ser automatizada.
Perguntas frequentes sobre o SXSW 2026
Quais foram os principais temas do SXSW 2026?
Liderança humanizada, o papel da inteligência artificial como sistema de execução, a construção de marcas na era dos agentes de IA, a “rebelião analógica” da Geração Z e a substituição dos relatórios de tendências pela leitura de convergências.
O que é creative flattening?
É o achatamento criativo que acontece quando todos usam as mesmas ferramentas de IA e a produção tende à padronização. A diferenciação passa a depender de curadoria, interpretação e credibilidade.
Por que as marcas precisam pensar em agentes de IA?
Porque decisões de compra e pesquisa passam cada vez mais por IAs, que comparam milhares de fontes e priorizam preço, qualidade da fonte e consistência da informação. Marcas sem credibilidade e consistência tendem a desaparecer dessas decisões.
O que Amy Webb disse sobre tendências no SXSW?
Que os relatórios de tendências estáticos se tornaram obsoletos diante da velocidade da mudança, e que o foco deve estar nas convergências entre tecnologia, cultura e comportamento.
O que é a rebelião analógica da Geração Z?
É a valorização, por jovens nativos digitais, de experiências mais humanas e menos mediadas por tecnologia, o que aumenta a responsabilidade das marcas em criar conexões reais.
Sobre a autora
Larissa Ferrari é Co-CEO da Octopus, onde lidera pessoas e estratégias de posicionamento de marca para clientes públicos e privados. Seu foco é acelerar o crescimento da agência e do negócio; e fomentar sua cultura, bem como o desenvolvimento das áreas e dos times para cocriar uma agência cada vez mais direcionada, com iniciativas vencedoras. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/larissaferrari/